Sistemas Abertos e a Auto-Organização da Vida

O advento da Sociedade de Crescimento Industrial e da ciência moderna se deram concomitantemente, sob o olhar das teorias de René Descartes e Francis Bacon que tiraram o foco da visão orgânica e holística da estruturação da vida para uma visão mecânica e analítica. Desta mudança na cosmovisão, o mundo passou a ser interpretado a partir de modelos que legitimam como ‘científico’, aqueles processos que podem ser descritos objetivamente e que são passíveis de controle por parte do observador. Observador e objeto separam-se em duas entidades distintas.

Tal pensamento alavancou o desenvolvimento tecnológico, todavia não deu conta de explicar os processos de auto-renovação da vida. Cada vez que a ciência pensava ter descoberto a menor estrutura que compunha a matéria, via-se esta menor ‘entidade’ se reduzindo ainda mais, e dissolvendo num aparente ‘nada’. Percebeu-se então que a realidade não era constituída de ‘coisas’ ou ‘substâncias’ e sim de ‘energias’ em dinâmicos relacionamentos entre si.

Os cientistas da vida adotaram então uma nova estratégia: começaram a olhar para o todo, ao invés das partes, para os processos, e não somente para as substâncias. Percebeu-se então que este ‘todo’ não se tratava de um conglomerado de coisas distintas coexistindo entre si, mas sim de ‘sistemas’ dinamicamente organizados, complexamente equilibrados, interdependentes em cada movimento, cada função, cada troca de energia e de informação – seja uma célula, um corpo, um ecossistema ou o planeta em si. Cada elemento faz parte de um padrão mais amplo, um padrão que se conecta e se desenvolve por meio de princípios discerníveis.

O biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy batizou tais princípios de ‘Teoria Geral dos Sistemas’ e suas teorias espalharam-se rapidamente pelo campo das ciências físicas, biológicas e sociais. O antropólogo Gregory Bateson chamou-a “a maior mordida no fruto da Árvore do Conhecimento em dois mil anos”.  A auto-organização da vida   A alternância do foco das ‘entidades isoladas’ para os ‘relacionamentos dinâmicos’, conduziu os cientistas a uma descoberta muito especial: que a Natureza se organiza sozinha. Assim sendo, partindo desta percepção, dispuseram-se a compreender os princípios pelos quais se dá essa auto-organização.

Descobriu-se que tais princípios ou ‘propriedades sistêmicas’ são extremamente elegantes em sua simplicidade e constância por todo o universo observável, dos sistemas sub-orgânicos aos biológicos, ecológicos, assim como dos sistemas mentais e sociais. As propriedades dos sistemas abertos que possibilitam que a variedade e a inteligência das formas de vida surjam das correntes interativas de matéria e energia são (até o presente momento) quatro:  

1. Todo sistema, do átomo à galáxia, é uma totalidade, e não pode ser reduzido a seus componentes. Sua natureza e capacidade distintas derivam dos relacionamentos interativos de suas partes. É um jogo ‘sinérgico’ gerando sempre ‘propriedades emergentes’ e novas possibilidades que não podem ser previstas a partir do caráter de suas partes – assim como a natureza úmida da água não pode ser predita a partir do oxigênio e do hidrogênio antes de se combinarem.

2. Graças às constantes interações entre ‘matéria-energia’ e ‘informação’ os sistemas abertos conseguem manter seu equilíbrio – eles se auto-estabilizam. Bertalanffy chamou essa capacidade de ‘fluxo/equilíbrio’. Por meio destas interações de adaptabilidade os sistemas podem se auto-regular para compensar condições cambiáveis em seu ambiente. Essa função homeostática é realizada pelo registro/acompanhamento dos efeitos de seu próprio comportamento, ajustando-o às normas particulares deste ambiente. É uma função de ‘feedback de redução do desvio’ – por meio deste sistema, mantemos a temperatura do corpo ou curamo-nos de um ferimento.

3. Sistemas abertos, além de manter o equilíbrio em meio ao fluxo, evoluem em meio a sua complexidade. Quando um desafio imposto pelo ambiente persiste, o sistema pode se adaptar ou desmontar, reorganizando-se em torno de novas normas, capazes de reagir melhor às novas condições. É um ‘feedback de ampliação do desvio’. Por meio deste sistema, evoluímos desde a ameba até aqui. Todavia, se nossas mudanças não forem compatíveis com as mudanças no sistema, este pode entrar em colapso.

4. Todo sistema é um ‘holon’ – ou seja, é tanto algo inteiro em si mesmo, compreendido por subsistemas, como é simultaneamente parte integral de um sistema maior. Logo, os holons formam ‘hierarquias aninhadas’, sistema dentro de sistema, circuito dentro de circuito, campo dentro de campo. Cada nível holônico – digamos, do átomo para a molécula, da célula para o órgão, da pessoa para a família – gera propriedades emergentes que não se reduzem às capacidades dos componentes separados.

Bem diferente das hierarquias de controlo conhecidas das sociedades nas quais as regras são impostas de cima para baixo, nas hierarquias aninhadas (holonarquias) a ordem tende a vir de baixo para cima; o sistema se gera sozinho a partir da cooperação adaptativa e espontânea entre as partes, em benefício recíproco. Ordem e cooperação andam de mãos dadas, e os componentes se diversificam coordenando papéis e inventando novas respostas.

Na compreensão da teoria geral dos sistemas, surge o eco de um sentido de ‘Eu-Ecológico’, que transcende o ‘Eu-Antropocêntrico’, cindido e separado do todo. O discurso “Estou protegendo a floresta tropical” transforma-se em “Sou a floresta tropical que acabou de desfrutar deste pensamento” – uma capacidade de auto-percepção mais ampliada, empática e dinâmica no que concerne agir a favor da vida na Terra : de sua própria vida na Terra!! E que alívio sentimos, então! Acabaram-se milhares de anos de separação imaginária e começamos a recordar de nossa verdadeira natureza. Ou seja, a mudança é espiritual, às vezes chamada ecologia profunda.” (Itálico de John Seed – Ecopsicólogo Norte Americano)

Organizado por Rogério M. G. Soares

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