Por uma vida Natural; Por uma vida Real

Nos ensinaram a não julgar, mas não nos estimularam a desenvolver o autoconhecimento necessário para permanecer tranquilo diante das opiniões alheias em relação a nós;

Nos ensinaram a não ferir ao próximo, contudo não fomos treinados para nos defender de ataques e a confiarmos em nossa própria força;

Nos ensinaram a não cobiçar a mulher ou o homem do próximo, todavia não nos permitiram desenvolver a clara percepção de que nenhuma pessoa é propriedade de outra, que somos fundamentalmente livres;

Nos ensinaram a não mentir, mas não fomos estimulados a desenvolver uma visão clara o bastante sobre a volatilidade de nossas produções mentais para que pudéssemos discernir a realidade daquilo que projetamos sobre ela.

O que se torna evidente é que fomos encorajados a viver à altura de ideais utópicos, artificialmente construídos e que se dão em contraste com aquilo que nos seria mais natural. 

A ética e a moralidade também se estabeleceram nas bases de um ser humano ideal, idealizado. Tal foi a influência do pensamento socrático e platônico – e posteriormente cristão – na formação da sociedade. 

Nesse paradigma, o mundo das ideias é considerado real ou superior, enquanto que o mundo natural, dos fenômenos, é ilusório ou degenerado.

As ideologias e religiões são frutos desta cosmovisão. 

Desconectados do mundo real, da natureza e da vida aspiramos por nos tornar à imagem e semelhança de ideias produzidas pelos nossos próprios pensamentos.  

O que somos de fato nunca é bom o suficiente, o que sentimos não condiz com o que deveríamos sentir, estamos em eterna dívida, em falta para com fantasmas ideológicos e suas respectivas assombrações de ideais supranaturais, míticos, paradisíacos e fantasiosos.

Fomos colocados em guerra contra nós mesmos; que destino miserável!

Um conglomerado de indivíduos em guerra contra o que lhes é natural. Chamamos a isso de sociedade, de civilidade.

É em vão ansiar por paz e liberdade enquanto perpetuamos uma psicologia matriz de conflitos. 

Rogério M. G. Soares

21 de junho de 2021 – Solstício de Inverno

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