Uma proposta de estudo de si mesmo

Adentramos recentemente em uma proposta de estudarmos a nós mesmos sob a perspectiva provocativa do pensador indiano Jiddu Krishnamurti (JK), cujo cerne do pensamento é a percepção de que, individual e coletivamente, partilhamos de um mundo alicerçado na confusão e no sofrimento. Essa situação seria, segundo o pensador, reflexo da maneira como pensamos e, por conseguinte, nos relacionamos. Krishnamurti sugere que os conflitos existentes na sociedade, as disputas, animosidades, desigualdade, violência e guerras são uma continuidade das relações que estabelecemos a nível individual, seja com outras pessoas, seja com o meio ambiente, seja com nós mesmos.

Desta maneira, havendo um anseio em se viver em mundo menos conflituoso, os esforços deveriam ser redirecionados para que compreendamos inteiramente os mecanismos formadores dos conflitos onde eles são primeiramente originados: em nós mesmos, em nosso modo de pensar. 

JK demonstra, através de uma série de lúcidos argumentos, a existência de uma cortina que se interpõe entre nós e as experiências e relacionamentos que estabelecemos com a realidade. Somos, de certa maneira, incapazes de perceber a realidade tal qual ela é devido a sobreposição de experiências passadas (tradição, cultura, traumas, preconceitos, etc.) à situação atual. A mente se encontra condicionada a funcionar dentro de um sistema baseado na memorização, imitação e repetição, de forma que raramente experienciamos o ato criativo e criador; experiência que se faz possível caso consiguamos pôr em suspensão tais sobreposições.

A execução de uma tarefa técnica requer de fato a utilização destas funções da mente: o aprender, o memorizar, o imitar e o repetir. A partir deste sistema uma pessoa é treinada e habilitada a executar sua profissão, como por exemplo o construir de uma ponte, a remoção de uma cárie e a posterior obturação do dente, ou mesmo o ato de preparar uma refeição. Em todos estes casos nos valemos de um saber desenvolvido previamente, transmitido de pessoa a pessoa, imitado, desenvolvido, aperfeiçoado e repetido para se atingir resultados almejados. Caso assim não fosse, não haveria desenvolvimento tecnológico e melhorias nas condições de vida da sociedade. 

Percebe-se, todavia, que por mais que tenhamos atingido um grau elevadíssimo de desenvolvimento tecnológico, os conflitos e sofrimentos que permeiam as relações humanas, tanto nas esferas individuais como sociais, não arrefeceram nem um pouco e podemos até mesmo dizer que se agravaram. Talvez isso se deva ao fato de traspormos para as relações humanas este modus operandis utilizado nas experiências de cunho técnico, ou seja, fazemos uso da aprendizagem, memorização, imitação e repetição no momento do contato relacional, uma forma de agir que encortina a experiência direta com a realidade.

Krishnamurti propõe então o estudo de si mesmo como forma de se investigar e identificar os fatores mnêmicos* que se interpõem entre a realidade e nós, que nos mantém condicionados a imitar, repetir e interpretar as experiências atuais, desse exato instante, com base nas memórias de experiências passadas retidas na mente.

Imitamos a cultura e repetimos a maneira de nos relacionarmos tal qual a de nossos pais, avós e seus antepassados. Repetimos padrões e comportamentos que levam a desenvolver sentimentos de posse e controle sobre uma outra pessoa, uma localidade ou um outro ser. Somos imitadores de crenças religiosas, espirituais e de uma moralidade que nos impele a agir ou a refrear certas ações por imaginar, muitas vezes inconscientemente, que receberemos algum tipo de premiação, salvação ou punição e condenação. No entanto, quando a fórmula não funciona, nos encontramos confusos e em sofrimento. Enevoada, a mente repleta de memórias e conceitos, a mente imitadora e repetidora, sente-se incapaz de apreender a realidade sobre si, sobre o outro e sobre o momento. 

Por mais bela que seja a percepção que desenvolvemos sobre nós mesmos em nossa tradição espiritual, tal percepção não pode de fato aliviar de maneira permanente nossa confusão e sofrimento pois está alicerçada na imitação e repetição de algum sistema criado no passado, no relato sobre a experiência de algum antecessor, uma mestra, um santo, um guru, um buscador, uma pessoa iluminada, uma revelação, etc. Não se trata verdadeiramente de uma experienciação integral de cada um de nós com o que somos. Nutrimos, desta forma, uma autoimagem emprestada, costurada como uma colcha de retalhos a partir de conhecimentos transmitidos por outrem. Há aqueles dentre nós que absorveram a imagem de si próprio como um ser corrompido e pecaminoso, necessitado de uma espécie de punição, redenção e salvação. Outros, a imagem de si como centelhas divinas, manifestações de pura luz, cujo sofrimento advém da identificação com as ilusões do ego, entre tantos outros possíveis exemplos. Uma autoimagem emprestada parece sempre nos empurrar para um infinito vir-a-ser, um estado contínuo de busca por se tornar uma coisa outra que não o que somos, nesse exato instante do agora.

A problemática destas estruturas de pensamento recai sobre o fato de que essas imagens não advém de uma experiência real consigo, com o outro ou com as circunstâncias da vida, mas de uma sobreposição de ideias e conceitos passados, registrados na memória, sobre as experiências em si. Mesmo para nossa comunidade, que cultiva a prática do yoga e da meditação, a repetição e a imitação das técnicas deixadas pelos antecessores da tradição, assim como a memorização e repetição de conceitos filosóficos, só podem garantir que tenhamos as experiências previstas pelo próprio método, como o sentimento de paz, a serenidade, a concentração, o nirvana e o samadhi. Utilizamos métodos emprestados para desfrutar de estados físicos e mentais repetidos, previamente elaborados dentro de um sistema que sugere a imitação e a repetição.

Como dito anteriormente, podemos abraçar o legado da tradição yóguica como um sistema de técnicas desenvolvidas ao longo da história para se atingir determinados fins, antevistos em cada metodologia. A exemplo disso nos deparamos com certos métodos que visam retificar o funcionamento de órgãos e sistemas do corpo, regenerando assim a saúde, enquanto outros se concentram em desenvolver esteticamente a estrutura física, trazendo força, equilíbrio, flexibilidade, etc. Há métodos que se valem de técnicas destinadas a modular estados psicológicos e emocionais, como há também sistemas que apontam para a experienciações de natureza mais transcendental e mística.  Assim como o fazer de um dentista, uma engenheira ou um chefe de cozinha, nos referimos a métodos aprendidos, memorizados, imitados e repetidos para atingir os fins previstos pelos respectivos sistemas. Seriam estas experiências verdadeiramente nossas? Poderiam elas de fato nos permitir apreender a realidade sobre nós mesmos? Pode a repetição, a imitação e a memorização de um sistema nos levar à liberdade? Tais são os questionamentos lançados por Jiddu Krishnamurti.

A provocação proposta por JK, aponta para uma outra possibilidade de experienciação: o estudo de si mesmo sem métodos. Ele sugere um estado contínuo de vigilância de si mesmo a partir do qual somos convidados a nos flagrar imitando, repetindo, sobrepondo memórias e conceitos anteriores sobre a experiência com o aqui e agora. Instiga-nos a nos tornarmos mais lúcidos sobre a cortina que se interpõe entre nós e a experiência real, até que, se possível, consigamos apreender o momento em que ocorre uma experiência de contato pleno, direto e real – uma experiência criativa, em suas palavras. “Como fazer isso?”, podemos perguntar ao pensador indiano, que certamente não oferecerá uma resposta, receita, método ou sistema pronto.

Krishnamurti nos conduz até a beira de um abismo profundo, e nos deixa lá, sozinhos, no limiar dos nossos medos e fantasias de segurança – sentimentos estes que, segundo ele, são as razões pelas quais memorizamos, imitamos e repetimos. Assim agimos, pois a bem da verdade queremos ter a certeza de que tudo sairá como o planejado. Tais sentimentos garantem que eu descanse seguro em minhas pretensas fantasias a partir das quais ‘imagino’ saber como o mundo é e como reagirá a mim; fantasias estas que evitam que eu dê um passo à frente, rumo ao profundo e desconhecido abismo, que é o contato real entre as experiências da vida e eu, aqui e agora, sem memória, sem passado, sem repetição. Esse mesmo passo aterrorizante, se levado a cabo por meio de uma intensão impetuosa em investigar a mim mesmo, proverá um contato real com quem sou nesse exato instante, para além da minha autoimagem, além das memórias e conceitos que cristalizam minha experiência, além do medo de não estar seguro sobre quem sou, além das matrizes da confusão e do sofrimento. Na beira deste abismo, Jiddu Krishnamurti nos empurra para a primeira e última liberdade. 

Rogério Meggiolaro Gouveia Soares

13 de fevereiro 2021, Caraguatatuba, SP

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