A Comunicação Não Violenta como Forma de Emancipação Frente ao Patriarcado

A Comunicação Não Violenta é, para mim, essencialmente sobre trazer consciência para as minhas escolhas, meus sentimentos e valores e sobre expressar e reivindicar o que é importante para mim em vez de gastar minha energia apenas vivendo em função de decisões que não foram feitas por mim ou de me responsabilizar pelo sentimento de outras pessoas, fazendo constantemente a manutenção das relações em prol de uma harmonia, que na verdade não me beneficia.

Na live me apresentei e fiz questão de dizer que sou mãe. Ser mãe não me faz mais mulher do que outras mulheres, mas a maternidade trouxe tanto impacto sobre minha vida e sei que traz sobre a vida de todas as mulheres que se tornam mães, que é impossível deixar essa informação de fora. Em outro momento quero escrever sobre CNV e maternidade compulsória, outro assunto urgente e intimamente relacionado ao ainda dominador patriarcado.

Ser mãe me fez mais consciente das minhas escolhas. No meio da complexidade de dar conta das funções do dia a dia e do novo ser que eu tinha me tornado eu decidi que não queria mais reproduzir padrões e falas inconscientes, fruto de crenças que acumulei durante a vida. Também percebi que não poderia esperar que algo externo decidisse minha vida, fizesse minhas escolhas e me arrebatasse de mim mesma. Precisei tomar consciência sobre que tipo de educação queria dar para minha filha, que valores gostaria de nutrir nela, e também tomei consciência sobre os meus limites, sobre por limites, pedir ajuda e continuar sendo mulher para além do papel de mãe (essa parte demorou um pouco).

Parece tarefa simples o de se tornar consciente, mas sair do padrão de submissão do “deixa a vida me levar” e do que a sociedade e família espera e tomar as rédeas da própria vida é trabalhoso.

E para além da maternidade, podemos nos perguntar: eu sei o que valorizo e o que é importante para mim? Eu banco minhas escolhas, decisões e pontos de vista frente a meu pai, irmãos, parceiro, chefe?

Marshall Rosenberg, sistematizador da Comunicação Não Violenta, dizia que as mulheres foram educadas para acreditar que não tem necessidades próprias. E existem para atender as necessidades da família.

Manon Garcis, filósofa francesa, em uma entrevista recente para o El País diz que não ser submissa, ao patriarcado principalmente, exige um combate constante e exaustivo e que a submissão é mais uma renúncia ao combate do que à nossa liberdade.

E é por isso que sou tão fã da inteligência atrelada à Comunicação Não Violenta, porque ela me apoia a ter cada vez mais confiança de enfrentar minhas próprias sombras e condicionamentos e perceber o que valorizo e então me expressar com autenticidade e clareza delimitando limites, sem no entanto criar muros entre mim e quem me escuta.

O termo não violência foi traduzido do sânscrito Ahimsa. De maneira simplista a tradução desse preceito moral do yoga é não causar dano a ninguém, mas Gandhi trouxe a tradução que é a minha preferida: Ahimsa é a não submissão ao medo.


Isso para lembrar que CNV não é sobre ser bonzinho. É sobre ter coragem. Coragem de arcar com as próprias escolhas, de se manifestar quando algo incomoda, de subverter a ordem estabelecida (patriarcado!) e de bancar o próprio poder!

Três estágios de como se relacionar com os outros

Marshall fala de 3 estágios de como nos relacionamos com os outros. Gosto de pensar na minha relação com os homens aqui.

O primeiro é o estágio da escravidão emocional, que é quando acredito ser responsável pelo sentimento dos outros. Acredito que devo me esforçar para manter todos felizes. Se não existe harmonia sinto-me compilada a fazer algo, a fazer a manutenção da situação e o pior de tudo: sinto-me culpada!

O segundo estágio é o “ranzinza”. Aqui tomamos consciência do alto custo de assumir responsabilidade pelos sentimentos dos outros e tentar satisfazê-los em detrimento de nós mesmas. Brota uma raiva (muito justificada) por não ter olhado para si. Aqui aprendemos a expressar nossas necessidades e a arriscar a lidar com a contrariedade.

É nessa fase que despertamos para nós mesmas e para nossas necessidades. Uma máxima dentro da CNV é que por trás de todo comportamento existe alguma necessidade que queremos atender. Incorporar esse paradigma na nossa base de dados é a melhor dica que posso dar por aqui. Porque isso nos ajuda a lidar com esse sentimento tão doloroso que é a culpa.

Quando você se sentir incomodada, se sentir culpada, tenha coragem de olhar para o seu sentimento. O sentimento aponta para aquilo que é importante. Você pode sentir tristeza por talvez não ter cuidado de algo que é muito importante para você. Tome um tempo para fazer isso.

Após entrar em contato com esse sentimento e necessidade não atendida talvez ainda haja culpa, então olhe de novo para a situação e procure perceber qual necessidade você estava querendo atender ou estava atendendo quando agiu como agiu. Quando faço essa investigação muitas vezes vejo a importância que liberdade, fluidez e confiança têm para mim.

Como você sente ao fazer isso, ao perceber do que estava cuidando naquele momento? Geralmente eu me sinto aliviada, é como se tirasse a carga pesada dos meus ombros. Me dou conta que dentro daquelas circunstâncias eu fiz o melhor que eu poderia fazer!

Não quero que a culpa seja a propulsora de mudanças no meu comportamento, mas sim a consciência ligada ao coração, à autocompaixão. Troco culpa por responsabilidade. Responsabilidade de saber que sou responsável por muito do que vivo e crio na minha vida e que essa responsabilidade me traz consciência para melhorar e numa próxima vez talvez cuidar de todas as necessidades que identifiquei.

Precisamos de verdade aprender a nos acolher para sair da roda do sofrimento. Para isso é importante nos abrir para nossos sentimentos, que são como bússolas apontando para aquilo que mais valorizamos. E então podemos escolher nos cuidar.

Acredito que para enfrentar o patriarcado precisamos aprender a nos amar, a nos acolher, acolher e valorizar nossas necessidades, para não reproduzir padrões violentos e de dominação nem com a gente mesma. Então nos fortalecemos para expressar nossa dor, colocar limites, fazermos escolhas conscientes e bancarmos nossas decisões.

É importante também conversarmos sobre nossas dores, sobre nossos desafios, oferecer empatia, acolher e oferecer presença – sororidade sem julgamentos, criar redes de apoio.

Ao nos permitir esse nível de auto empatia posso talvez chegar ao terceiro estágio descrito pelo Marshall que é o da libertação emocional. Reconheço que são minhas próprias necessidades atendidas ou não atendidas que geram sofrimento. Nesse estágio já consigo me abrir para empatia e também reconhecer as necessidades do outro e se escolho atendê-las não é por medo, culpa ou vergonha, mas por compaixão. 


O Café Filosófico de novembro será com Karoline Rempel, debatendo este assunto.

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Karoline Rempel é formada em Ciências Sociais e é pós-graduada em Meio Ambiente e Sociedade, onde se aprofundou em metodologias dialógicas e participação. Pesquisa e pratica a Comunicação Não-Violenta desde 2010. É professora de kundalini yoga há mais de 10 anos e vê em sua filosofia uma grande aliada para uma comunicação consciente. Oferece cursos e workshops abertos de Comunicação Não-Violenta (CNV) e treinamentos em organizações e escolas. Adora meditar, viajar e se inspira no contato com a natureza e com a filha de 4 anos, que é também uma de suas maiores professoras de CNV.

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